NOTAS PARA RASURAR UMA DICOTOMIA

 

André Monteiro Guimarães Dias – PUC-Rio

 

 

I

Nas últimas três décadas, quase todos os discursos críticos e/ou historiográficos que vêm sendo produzidos em relação à chamada poesia marginal dos anos 70, apesar de heterogêneos e divergentes em muitos aspectos, parecem partir de um pressuposto comum: a idéia de que na poesia marginal há uma fusão entre arte e vida, ou, nas palavras de Heloísa Buarque de Hollanda, reiteradas por flora de Flora Süssekind:

 

Nos textos, uma linguagem que traz a marca da experiência imediata de vida dos poetas (...) O registro do cotidiano quase em estado bruto informa os poemas e, mais que um procedimento literário inovador, revela os traços de um novo tipo de relação com a literatura, agora quase confundida com a vida. São os já famosos poemas marginais. (HOLLANDA: 1981, p.98).

 

Entre arte e vida: aí se equilibra a poesia brasileira dos últimos anos. (...) São as vivências cotidianas do poeta, os fatos mais corriqueiros que constituirão a matéria da poesia... (SÜSSEKIND: 1985, p.67).

 

É a partir desse pressuposto (arte = vida) que a poesia marginal passa a ser vista como uma poesia expressiva, ou seja, como uma literatura - ou “antiliteratura”, conforme o vértice que se queira - cuja linguagem estabelece uma relação direta com a realidade corporal-existencial vivida pelo escritor.

A expressão, nesse caso, marcaria, tanto a especificidade, como a oposição, da postura poética marginal em relação a posturas poéticas anteriores (principalmente o “antilirismo” cabralino e o “cerebralismo concretista”), consideradas construtivas, isto é, entendidas como procedimentos poéticos voltados para a exploração racional e objetiva da própria linguagem e, ao mesmo tempo, afastados da realidade imediata vivida pelo corpo do poeta.

Foi exatamente por ser considerada anti-construtiva que a produção marginal foi lida, por muitos críticos literários especializados, como uma poesia realizada sem nenhum tipo de elaboração formal, uma poesia “pobre”, “ingênua”, “antiliterária”, “aquém da linguagem poética”, “regressiva”, tal como podemos observar nas críticas produzidas por Benedito Nunes (1991), Iumna Simon e Vinícius Dantas (1985) em relação à poesia marginal.

Seja utilizada como mero instrumento de classificação, seja destinada ao estabelecimento de um critério de “qualidade” literária, o fato é que a idéia da dicotomia construção/expressão aparece, de maneira implícita ou explícita, em quase todas as críticas e comentários sobre poesia marginal. Essa idéia, é preciso observar, não foi algo que se processou a revelia da postura poética dos próprios poetas marginais.

Ainda que não constitua um bloco homogêneo, a poesia marginal talvez represente, na história da literatura brasileira, um dos momentos em que mais se acreditou na possibilidade de uma relação direta entre experiência vivida e representação discursiva, ou, ainda, na possibilidade do “eu” que vive se sobrepor ao “eu” que escreve, tal como queria o poeta “marginal” Cacaso em “Na Corda Bamba” (1978): “Poesia/Eu não te escrevo/Eu teVivo...”(CACASO: 1985, p.64).

Enfatizando a “vida”, em detrimento da “escrita”, os poetas marginais criavam uma oposição entre um “poético vivido” e um “poético de linguagem”, conforme aparece em um depoimento de um dos membros do grupo Frenesi (uma das muitas tribos de poetas marginais da década de 70) recolhido por Carlos Alberto Messeder Pereira em Retratos de Época:

 

...nessa poesia marginal, o poético que é visado não é um poético de linguagem (...) Quer dizer, é um poético do vivido (...) E é por aí que se explica que tenha tido essa espécie de porosidade em relação à experiência da geração e a distância em relação à literatura (...) Quer dizer (...) de certo modo é a tentativa de descobrir o poético na vida (...) E não na linguagem (...) Por isso rompe com a tradição literária. (PEREIRA: 1981, p.95).

 

Separando a linguagem da vida, os poetas marginais pareciam ter um desejo de realizar um “texto sem linguagem”, ou, ao menos, uma poesia cujo efeito fosse o “...de que o poema não foi feito, tamanha sua proximidade e identificação com a experiência viva do leitor”, como queria Cacaso ao comentar o livro Creme da Lua (1975) do poeta “marginal” Charles (CACASO: 1997, p.222).

A idéia do poema “que não foi feito” não é outra senão a idéia do poema “que não foi construído” e que, portanto, é fruto da expressão vital do poeta. Por esse aspecto, a visão de Cacaso sobre a poesia de Charles – visão bastante representativa da sensibilidade poética dos anos 70 – vai ao encontro da já referida “crítica negativa” sobre a poesia marginal realizada por Iumna Simon e Vinícius Dantas, ainda que esse encontro se realize por caminhos explicitamente opostos:

 

De negação em negação, desidentificando-se pouco a pouco e ambiguamente da ordem burguesa e do valor literário da poesia, a expressão poética, hoje, não toma qualquer distância da experiência e da linguagem cotidianas, nem mais aspira a idealizações formais. (...) Recentemente, uma antologia reunindo a produção poética dos anos 70 chamou-se Poesia Jovem. (...) Rótulo e critérios bem adequados para caracterizar o sentido regressivo da poesia brasileira na última década; instigado por um veemente sentimento de desliteralização, o produto novo forjado pêlos poetas atuais é o poema de fácil e rápida aceitação (...) Transparente, simples, literal, mas caótico, fragmentário, dispersivo, o poema é rebaixado assim a um modo de sensibilização, uma terapia que se efetua fora do medium verbal. (SIMON e DANTAS: 1985, p.48-49/55/59).

 

Movidos por uma separação rígida entre alta e baixa literatura, Simon e Dantas estabelecem como parâmetro de julgamento da “poesia jovem” dos anos 70 um conceito muito fechado e excludente de poesia – conceito, aliás, não muito bem explicitado no artigo –, no qual a poesia marginal não poderia se enquadrar, estando por isso “desidentificada” ao “valor literário da poesia”.

Cacaso, sendo um porta-voz crítico da postura poética marginal, certamente não concordaria com esse parâmetro estreito de julgamento proposto por Simon e Dantas. Contudo, poderia concordar com os dois críticos unicampistas no que se refere à afirmação de que os textos da poesia marginal se efetuam “fora do medium verbal” – o que seria o mesmo que dizer: o poema marginal é o poema que “não foi feito”, pois que é o poema que não foi construído, mas vivido e expressado.

 

II

Pode-se dizer que a idéia dicotômica expressão/construção, na medida mesmo em que é utilizada, em relação à poesia marginal, como mero instrumento de classificação e/ou valoração, quase nunca é submetida a um questionamento crítico.

O que se discute sempre em relação à poesia marginal é o seu valor literário, ou não; sua relação com a tradição moderna, etc. A identidade supostamente expressiva da poesia marginal quase nunca é questionada pelos críticos que a atacam, pelos críticos que a legitimam e pela maioria dos poetas que dela fizeram parte.

A equivalência “poesia marginal = poesia expressiva” permanece, dessa forma, cristalizada e naturalizada como um objeto neutro, capaz de lançar luz a uma suposta realidade do processo de escrita: a relação entre o sujeito que escreve e o sujeito escrito. Tal equivalência acaba por se tornar então um mito, no sentido em que Roland Barthes o entende:

 

...Passando da história à natureza, o mito faz uma economia: abole a complexidade dos atos humanos, confere-lhes a simplicidade das essências, suprime toda e qualquer dialética, qualquer elevação para lá do sensível imediato, organiza um mundo sem contradições, porque sem profundeza, um mundo plano que se ostenta em sua evidência, cria uma clareza feliz: as coisas parecem significar sozinhas, por elas próprias. (BARTHES: 1993, p.164).

 

Nosso objetivo aqui não é endossar o mito da equivalência “poesia marginal = poesia de expressão”, nem, muito menos, negá-lo completamente, na medida em que reconhecemos seu valor de utilidade em diversas formulações teóricas sobre poesia marginal, muitas das quais bastante elucidativas em vários aspectos. O que queremos é relativizar esse mito. Ao invés de percebê-lo como um dado natural, essencial e autônomo, percebê-lo na dinâmica de suas contradições.

Não foi descartando a própria linguagem verbal presente nos textos da poesia marginal que, por exemplo, Vinícius Dantas e Iumna Simon puderam, paradoxalmente, interpretar os textos da poesia marginal como uma suposta “terapia” que se efetua fora do medium verbal. Nesse sentido, os dois críticos, iludidos pelos efeitos de uma transparência que eles mesmos denunciam, acabam legitimando, talvez de maneira involuntária, justamente a crença dos marginais na possibilidade do “eu que vive” se sobrepor ao “eu que escreve”, como se esse “eu”, em sua pura expressão, pudesse chegar ao leitor sem nenhuma mediação.

Seria por demais implausível admitir que a expressão possa existir em e por si mesma. Ela pode ser entendida apenas como um efeito de expressão, e não como uma essência de expressão, porque nenhum leitor – seja ele um “crítico”, ou não – tem acesso suficiente à realidade empírica do “eu que escreve” para saber se determinado escritor está sendo mais expressivo - mais “ligado à vida” – do que algum outro supostamente mais construtivo.

Da mesma maneira que a autobiografia, como afirmou Lejeune no clássico “O pacto autobiográfico”, é uma ilusão, com a qual podemos ou não criar um pacto, a idéia de expressão também pode ser pensada como uma ilusão, construída e legitimada por negociações estabelecidas entre o escritor, o texto e o leitor.

Seguindo a trilha desse raciocínio, a dicotomia expressão/construção torna-se também uma ilusão – o que nos leva a crer que quando comparamos a poesia “cerebral” do concretismo com poesia “subjetiva” da poesia marginal dos anos 70, não estamos fazendo outra coisa senão criarmos dois pactos distintos: um pacto de construção e outro de expressão.

 

III

A descrença em grandes projetos, tanto políticos como estéticos, a opção pelas questões individuais e micro-políticas, em detrimento das “causas coletivas”, foram então as marcas discursivas do ambiente cultural no qual se processou a postura poética “desbundada” assumida pela poesia marginal.

Tendo em vista essas marcas discursivas, não fica difícil compreendermos o fato de que a poesia marginal foi, em grande parte, embalada por uma onda de ceticismo em relação aos entusiasmos vanguardistas (leia-se, principalmente, a vanguarda concretista) e em relação às ambições utópicas, características do modernismo literário. Essa onda de ceticismo, no entanto, era compensada por uma crença, como observou Ítalo Moriconi (1998, p.15), nos valores do corpo e da subjetividade.

Mas se a poesia marginal assumia uma postura cética em relação às utopias da modernidade, podemos dizer, em contrapartida que o desejo de realizar uma fusão entre a identidade do poema e a identidade do sujeito que escreve não deixa de ser também uma construção utópica. Como observa o próprio Cacaso, em relação ao processo de produção e distribuição da poesia mimeógrafo,

 

Muito mais do que apresentar um livro, o poeta apresenta-se através dele, vale-se dele como se fosse seu cartão postal de visitas. (...) sabemos que o próprio autor participa pessoalmente na distribuição de seus trabalhos. Nesse caso, entre o poeta e o eventual leitor já nasce o pretexto para uma conversinha; está quebrada a tradicional distância que costuma separá-los. Fora do convencionalismo costumeiro que marca a relação entre obra e leitor, torna-se agora possível conversar sobre poesia, livre de esquemas professorais e do obscuro palavreado técnico dos cursos de literatura (...) O efeito de distensão e afrouxamento operado neste movimento contém, virtualmente, os germes da atitude revolucionária diante da cultura: esta deixa de ser tratada como fetiche, como algo apartado e alheio à vida, para recuperar seu posto e significado na continuidade viva da experiência social. Tudo somado, aponta para uma situação que contém uma utopia: a distribuição manual do livro, ainda que a troco de algum dinheiro, atenua muito a presença do mercado, modificando funcionalmente a relação entre obra, autor e público e reaproximando e recuperando nexos qualitativos de convívio que a relação com o mercado havia destruído... (CACASO: 1997, p.25).

 

Essa utopia de trazer o poema para a vida, de naturalizá-lo e torná-lo parte de um bate-papo ordinário, de uma conversinha, é o que distingue a proposta da poesia marginal de fundir arte e vida das propostas do modernismo de 22, muitas vezes associadas à poesia expressiva dos marginais, de questionar a autonomia da arte e direcioná-la a uma intervenção direta na vida.

A dessacralização da poesia e da arte moderna foi movida pela busca desse efeito de choque anti-contemplativo (destituído de aura), o que era alcançado através do “escândalo” iconoclasta e paródico. A proposta da poesia marginal de fundir arte e vida, diferentemente do modernismo, não tinha a pretensão de chocar o leitor, mas ganhar a sua solidariedade, resgatando, tal como vimos na formulação de Cacaso, os “nexos qualitativos de convívio” entre obra, autor e público que a estrutura do mercado capitalista, própria da modernidade, havia destruído – o que resultava num desejo de restituir a aura do objeto livro, ou seja, um desejo de garantir a autenticidade da assinatura autoral que era legitimada pela presença do corpo físico do autor no processo de distribuição do livro.

Essa tentativa de resgatar a aura pode ser relacionada a um desejo de “intercambiar experiências”, algo que, de acordo com as formulações de Benjamin em “O narrador” (ensaio de 1936), teria desaparecido no horizonte da vida moderna.

Buscando resgatar a aura da experiência, os livros da poesia marginal, como nos lembra ainda o próprio Cacaso, fazendo uma referência ao processo de produção e distribuição dos livros mimeografados de Chacal, aparentavam “qualquer coisa de anacrônico” (CACASO: 1997, p.18). Essa aparência de anacronismo certamente contribuiu para que muitos críticos apontassem, na poesia marginal, um “desprezo” pela tradição moderna (NUNES: 1991, p.173).

Talvez seja um exagero afirmar que a poesia marginal assumiu uma postura de desprezo em relação à tradição moderna, já que podemos perceber, claramente, uma grande fluência da dicção poética de Oswald e Bandeira na poesia de Chacal, Charles, Cacaso e outros poetas representativos do período.

O que os marginais rejeitavam na tradição moderna era a noção da “linguagem convertida em objeto” que, como nos mostra Foucault em As palavras e as coisas, está ligada à “crise da representação” que passou a caracterizar, desde o século XIX, os ambientes discursivos da modernidade. Essa crise teria resultado, segundo Foucault, na “intransitividade” da linguagem literária, ou seja, no seu fechamento dentro dos contornos referenciais do próprio “ato de escrever”.

Foi a partir dessa idéia de intransitividade da linguagem literária moderna, cujo principal paradigma é “a descoberta mallarmiana da palavra no seu poder impotente” (Idem, p.396), que Roland Barthes estruturou o seu desejo pós-estruturalisata de abalar as noções de “originalidade” e “profundidade” e desmontar o mito do “autor-deus”, tal como fica explícito no ensaio “A morte do autor”, escrito em 1968.

Buscando se contrapor a um tipo de crítica que busca a “explicação” da obra na vida do autor, Barthes formula que é “...a linguagem que fala e não o autor...” (BARTHES: 1988, p.66), sendo essa linguagem concebida como algo que é permanentemente regulado, não pelo indivíduo que escreve isoladamente, mas por escrituras múltiplas e marcas culturais variadas que precedem o ato de composição de qualquer texto. Nesse sentido, escrever, para Bartthes, não significa expressar um “eu” que supostamente poderia “originar” um texto capaz de representá-lo, mas, ao contrário, significa construir esse “eu” no e pelo próprio discurso.

A proposta da poética marginal de sobrepor o “eu que vive” ao “eu que escreve” caminhava justamente na direção oposta à formulação barthesiana da “morte do autor”, já que era justamente a aura autoral, a assinatura pessoal do corpo de que quem escreve que os poetas marginais buscavam recuperar na construção do pacto de expressão que empreendiam.

 

IV

Na medida em que construíam uma crença na possibilidade do “eu que vive”, liberto das referências livrescas, sobrepor-se ao “eu que escreve” – como se esse “eu”, em sua “pura expressão”, pudesse chegar ao leitor sem nenhuma mediação - os poetas marginais assumiam, em geral, uma postura de repúdio explícito pelo culturalismo e pela erudição livresca dos poetas concretistas, considerados castradores e repressivos em relação aos valores da subjetividade e da expressão.

O concretismo formulou uma poética que se pretendia assumidamente objetiva e cerebral, uma poética na qual o poema fosse concebido como um objeto autônomo - sintonizado com a “descoberta mallarmiana da palavra em seu poder impotente” - e não como uma expressão da realidade subjetiva e existencial do poeta. Contudo, a oposição da “espontaneidade”, defendida pela poesia marginal, frente ao “rigor”, proposto pelo concretismo, torna-se frágil quando pensamos que a produção da poesia marginal foi, muitas vezes, regulada, ou melhor, auto-regulada por uma “leitura autoritária”, aquela leitura que, como nos lembra Silviano Santiago, “...enfrenta as exigências do poema com idéias preconcebidas e globalizantes...”. (SANTIAGO: 1989, p.54).

Podemos encontrar essa “leitura autoritária” em um comentário de Cacaso sobre os poemas de Ana Cristina César, uma poeta atípica dos anos 70. O comentário de Cacaso aparece em um depoimento de Ana Cristina recolhido por Carlos Alberto Messeder Pereira em Retratos de Época:

 

Me lembro de uma frase típica do Cacaso (...) (ele) era o “bom leitor”, o “classificador” e, uma vez, eu li (pra ele) um poema meu que eu tinha adorado fazer (...) e o Cacaso olhou com olho comprido (...) leu esse poema e disse assim: “É muito bonito, mas não se entende (...) o leitor está excluído”. (...) Aí eu mostrei também o meu livro pro Cacaso (...) e ele disse: “Legal, mas o melhor são os diários porque se entende... são de comunicação fácil, falam do cotidiano... (PEREIRA: 1981, p.229).

 

Preconcebendo, globalizando o que seria uma comunicação poética fácil, a opinião de Cacaso nos mostra que o empenho marginal, já aqui referido, de “naturalizar” a relação entre o texto e o leitor (o pacto expressivo) era paradoxalmente regulado, ou seja, construído por determinados valores. Valorizava-se, ainda que de maneira não muito explícita como no concretismo, “...certos estilos mais do que outros e, desta forma, definiam-se parâmetros, modelos, gostos e sistemas de reconhecimento...”. (Idem, p. 229).

Essa valorização, apontada por Carlos Alberto, de determinados estilos, em detrimento de outros, leva-nos a perceber que a poesia marginal construiu uma determinada dicção poética padrão, ainda que essa construção resultasse, como efeito, na sensação “de que o poema não foi feito”.

Através da construção dessa dicção é que podemos perceber, tanto a grande semelhança existente entre as linguagens dos poemas de Charles, Chacal e Cacaso, como a grande diferença que a linguagem dos poemas de, por exemplo, Ana Cristina César apresenta em relação à grande maioria da produção marginal. Enquanto aqueles procuravam naturalizar a relação de identidade entre poeta, poesia e leitor, em Ana Cristina a identidade do texto parecia estar sempre borrada por uma incógnita.

Talvez possamos pensar que o programa da poesia marginal se dirigisse à construção de uma “poesia da paixão”, ou seja, uma poesia capaz de criar, através de uma suposta expressão emocional, um pathos entre a vida do poeta e a vida do leitor. Programa que, por princípio, seria diametralmente oposto ao programa da poesia concreta. Este estaria direcionado a criar uma “poesia da razão”, uma poesia que fosse capaz de criar, através de uma suposta construção de linguagem despida de emoção, um distanciamento “crítico” na relação poeta/texto/leitor.

Não estamos tecendo essa dicotomia (razão construtiva/paixão expressiva) para confirmá-la, nem muito menos para enaltecê-la. Tal dicotomia é o que, em geral, podemos vislumbrar na própria comparação dos processos de legitimação e autolegitimação das poéticas mencionadas. Nosso interesse aqui é mostrar que categorias como expressão (paixão)e construção (razão) não são capazes de representar uma realidade estática e totalizadora de determinado processo de escrita, pois constituem “pactos flutuantes” sujeitos a variações histórico-interpretativas. Sendo encarada como pacto e não como essência, a legitimação de tais categorias é passível de ser rasurada, ou seja, está sujeita a constantes questionamentos, negociações e renegociações.

 

V

Não seria a suposta expressão da poesia marginal uma construção? Uma construção regulada e legitimada por determinada “comunidade interpretativa” (Stanley Fish) de escritores, críticos e leitores? Uma construção paradoxalmente movida pelo desejo de desconstruir a própria construção? Por outro lado, não seria também possível pensar que o anti-pathos proposto pela poesia concreta é, à revelia do desejo controlador dos próprios concretistas, constituído por uma força expressiva? Não seria possível pensar que determinado leitor estabelece uma relação de paixão com o universo da poesia concreta? As várias polêmicas já ocorridas em torno do suposto racionalismo da poesia concreta não poderiam ser vistas como atitudes movida pela paixão? Até que ponto poderíamos estabelecer os limites claros entre construção e expressão? Em última instância, até que ponto poderíamos estabelecer limites seguros entre o universo da razão e o universo da paixão?

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993.

________________. “A morte do autor”. In : O Rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

CACASO. Não quero prosa. Campinas: Editora da Unicamp; Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997.

FISH, Stanley. Is there a text in this class? The authory of interpretive communities. Cambridge: Harvard UP, 1980.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Lisboa: Portugália, s/d.

HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Impressões de viagem - CPC, vanguarda e desbunde: 1960/1970. São Paulo: Brasiliense, 1981.

LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiografique. Paris: Seuil, 1975.

MORICONI, Ítalo. “Sublime da estética, corpo da cultura”. In : ANTELO, Raul. Declínio da arte ascensão da cultura. Florianópolis: Letras Contemporâneas; ABRALIC, 1998, p.63-70.

NUNES, Benedito. “A recente poesia brasileira – expressão e forma.” In : Revista Novos Estudos CEBRAP, 31, 1991, p.171-183.

PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retratos de época. Rio de Janeiro: Funarte,            1981.

SANTIAGO, Silviano. “Singular e anônimo”. In: Nas malhas da letra”. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p.94-123.

SIMON, Iumna e DANTAS, Vinicius. “Poesia ruim, sociedade pior.” In : Revista Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n 12, p.48-61, jun. 1985.

SÜSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.